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Reacionarismo até a página dois

6 de março de 2014
Vem sendo divulgada, nas redes sociais, manifestação cuja pretensão é emular a Marcha da Família com Deus pela Liberdade original, de 1964. Abaixo, um panfleto do evento a acontecer em 22 de março próximo.

"O Retorno" só pega bem em filmes do Jean-Claude Van Damme

A direita brasileira hodierna exerce, em diversas frentes, grande esforço no sentido de conter a hegemonia de esquerda no debate público — na imprensa, na academia, nas escolas, na cultura pop, no embate político-eleitoral.

Grande esforço porque, como afirmou Olavo de Carvalho em seu programa de rádio, os militares combateram e assassinaram comunistas, não o comunismo. Culturalmente, a esquerda ganhou território no decorrer das décadas. Ser de direita passou a ser sinônimo de "defensor da ditadura", da ordem pela ordem, a qualquer preço.

Cabe esclarecer que o reacionarismo, mencionado no título, é tido por nós como virtuoso. Reacionário não é aquele sujeito raivoso e "contra mudanças", entre outras definições grosseiras (e falsas). Reacionário é simplesmente a força oposta ao revolucionário. Somos contra revoluções, armadas ou culturais, bruscas ou progressivas, somos a reação à revolução, pois as consideramos violentas, imprudentes, e suas consequências, perversas. É tão simples como parece. Ser reação ou revolução depende do dado contexto histórico. No atual, revolucionário é o socialista, enquanto reacionário são o conservador, o liberal, o libertário — que, a despeito de suas diferenças, são defensores da propriedade privada, do individualismo e da economia de mercado (em suma, são pró-capitalismo).

Graças ao trabalho cultural e pedagógico da esquerda, uma pessoa pode ser insultada como fascista e reacionária, ao mesmo tempo. Paradoxal. Fascistas são revolucionários, porém inoperantes e quase inexistentes depois que perderam a guerra — são o patinho feio do espectro político-ideológico exatamente por conta disso, apesar de sua herança para o mundo (vide leis trabalhistas brasileiras e o corporativismo que passeia em governos de esquerda ou direita). É grande a controvérsia, entre a direita, sobre situá-los como extrema-esquerda ou extrema-direita. Discussão que não cabe aqui, minha opção é a segunda; por outro lado, aprecio caracterizar o fascismo como "direita vermelha" ou ainda "direita revolucionária", da mesma forma que configuro a social-democracia como a "esquerda azul" que humanizou o socialismo.

O que organizadores e entusiastas desse evento promovem, no entanto, é revolucionarismo, não reacionarismo. O golpe ou contrarrevolução (uma revolução contra outra) de 1964 teve amplo apoio popular e liberal-conservador. Depois, os próprios liberais e conservadores foram afastados quando o regime que seria provisório degringolou em permanente por duas décadas.

Quem redigiu ou entusiasmou-se com esse panfleto lê a Marcha original como redentora, ignorando solenemente o rumo que a revolução que essas manifestações apoiaram tomou. O que se vê nesse movimento é uma imiscuidade entre fascismo e conservadorismo (fascistas são originalmente tradicionalistas, não conservadores). Daí que se contempla o famoso conceito de jaboticaba: só tem no Brasil.

Ainda que se faça uso da denominação "fascista" em sentido científico, não pejorativo e propagandesco como faz a esquerda para definir (e difamar) quaisquer de seus adversários, não devem ser nossos aliados. São estatistas, dirigistas, avessos ao capital estrangeiro, coletivistas. São um extremo próximo ao outro, o socialismo. Incluir "Deus", "Fé" e "Família" junto à "Pátria", como fazem os integralistas de hoje, não os tornam reacionários ou conservadores.

A Marcha II não obterá resultados exceto endossar o clichê esquerdista, segundo o qual conservadores são golpistas, e expor manifestantes ingênuos ou confusos (em ideias) ao risco da violência revolucionária dos comunistas — tanto os anarquistas quanto os socialistas, arrogantes que se intitulam "o povo" e que, observem, após desentendimentos nos últimos meses, agora unem-se contra um inimigo comum: o espantalho que alguns direitistas fizeram o favor de costurar.

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Vandalizando rolezinhos

22 de janeiro de 2014
Em outra oportunidade, afirmei que "o neossocialista, carente dos revolucionários que abolirão a propriedade privada, tem no assaltante de uma loja, ou mesmo residência, sua catarse ideológica". Buscam substitutos para os personagens de sua trama, que a realidade, mesquinha, recusa.

O mais novo hospedeiro desses parasitas morais são os rolezinhos. Exaustivamente abordados na imprensa e por intelectuais um tanto desapegados dessa estranha dimensão a que se convencionou chamar de "realidade", esses encontros em massa de adolescentes e jovens foram o mais recente flagrante de apropriação indébita e vandalismo intelectuais.

De sinônimo de arrastão a manifestações políticas, o fenômeno expôs a vergonhosa dificuldade dos formadores de opinião brasileiros em analisar friamente um evento social. Para não variar, a campeã em análises presunçosas e elitistas por m² foi a esquerda. Geralmente, a direita não teoriza, mas também não lhe incomoda deixar todo tipo de população vulnerável a essa cooptação ideológica. Aconteceu com outras expressões culturais periféricas. Depois de alguns anos, resta-nos reclamar da goleada levada na guerra cultural.

Felizmente, comparações esdrúxulas com contextos e fatos históricos importantes vêm recebendo resistência e devida ridicularização, a exemplo das referências ao apartheid e a Rosa Parks (de longe, a alusão mais desavergonhada). Por outro lado, tampouco é correto avaliar o rolezinho como um eufemismo para arrastão e pilhagem. Aglomerações durante as quais esse tipo de crime ocorreu, sim. O objetivo central desses encontros, na verdade, está longe da política e do crime e são mais legítimos que muitas autoridades intelectuais ou morais: divertir-se.


Antes desse barulho todo, porém, esses mesmos adolescentes e jovens já se divertiam nesses mesmos lugares. Sozinhos, em casais ou em grupos. A intelectualidade socialista entrega sua própria localização entre os "abismos sociais" quando trata como uma mesma instituição — branca e elitista — shoppings populares das Zonas Leste e Sul paulistanas e shoppings em bairros ricos como Itaim (não completam com "Bibi" pois devem sequer desconfiar da existência de outro Itaim, pobre, o "Paulista").

A precaução de administrações de shopping ante os rolezinhos só ocorreu após eventos homônimos em que houve casos de depredação, roubo, furto, riscos à segurança (molecada, aos montes, correndo por escadas rolantes nos sentidos contrários) e outras pertubações; isso em shoppings como Itaquera e Interlagos, densamente frequentados pela classe média-baixa before it was cool (ou seja, antes de a Era Lula e seus arautos na imprensa e na academia apelidá-los de "nova classe média"). Os indivíduos dos rolezinhos, sozinhos ou em grupos, já são o público normal destes e outros shoppings, que resolveram precaver-se dos futuros encontros não por preconceito, mas por "pós-conceito" ante o tumulto perigoso ou criminoso ocorrido. O problema estava no que acontecia no fenômeno de massa — que dispensa informações de cor ou renda — não com os indivíduos e grupos. Os cafetões de minoria (termo brilhantemente cunhado por Alexandre Borges, do Instituto Liberal) ignoram a realidade em função da ideologia.

O shopping JK Iguatemi, o primeiro "das elites" nessa história, foi prato cheio para os classistas e racialistas, ainda mais com a liminar obtida para proteger a própria propriedade, prerrogativa que precisou de autorização judicial — fator estranho que poucos dão importância. Obviamente, eventos chamados "rolezinhos" que ocasionaram tumultos e crimes anteriormente, em outros shoppings, abririam precedente para que outro evento chamado, pois bem... "rolezinho" fosse visto como ameaça à segurança de clientes e lojistas.

O cinismo dos cafetões de minoria desconhece limites para possíveis desdobramentos. Houve mesmo indignação pseudoliberal em função de o shopping Iguatemi rejeitar "uma nova carteira de clientes". A contradição sistemática da mentalidade revolucionária nega que o rolezeiro seja frequentador comum do shopping popular perto de casa mas afirma sua intenção e capacidade monetária de ser um novo cliente do shopping rico e distante. Noutro flanco, comparou-se esse divertimento dos "jovens pobres e negros" ao "rolezinho da elite branca" dos calouros de uma faculdade da USP, no shopping Eldorado, que não foram expulsos pela polícia ou pela segurança, conforme registro de vídeo de 2013 — e de 2012, 11, 10, 09 e 08, até onde este articulista pôde encontrar. Evento de um único dia no ano? Sem ocorrência de arrastões e outros crimes ou tumultos (afora os palavrões e cantoria)? Incômodo de uma hora e meia já reconhecido pela administração e segurança do shopping como tradição universitária? Não, ignorem todas as peculiaridades que tornam a equiparação estúpida — fatos são muito inconvenientes quando o embuste pseudossociológico precisa criar sua tensão social em laboratório.

Ironicamente, um elemento cultural da juventude periférica foi vandalizado por quem jura defendê-la, para em seguida ser tomado de assalto por verdadeiros bandidos intelectuais. Rolezinho agora virou manifestação de movimentos oportunistas diversos (UNEAfro majoritariamente branca, famílias sem-teto que frequentam o shopping em dias normais), tudo com o aval da imprensa preguiçosa. Em apenas um mês de existência do fenômeno, já pode-se dizer que não se fazem rolezinhos como antigamente — se o Estado os reprimiu, a esquerda os aboliu.

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Classismo: ódio politicamente correto

28 de novembro de 2013
No último final de semana, a Veja Rio publicou matéria a respeito de jovens cariocas que têm se unido e reunido em torno de um projeto político-partidário, o Partido Novo (NOVO). Em tempos de black blocs (BBs — leia-se “bebês”), grupo ou “metodologia” anarquista que tocou o terror no Rio de Janeiro há poucos meses, a reportagem orientou-se pela seguinte questão: em que outras iniciativas políticas estaria o jovem carioca se envolvendo?

Assim chegou-se ao NOVO. Partido em formação, fundado em 2011 e caminhando para submeter ao Tribunal Superior Eleitoral seu pedido de registro (possui trezentas das 492 mil assinaturas certificadas necessárias), conta com diretórios em nove estados e apoiadores de diferentes segmentos socioeconômicos, e, contra a corrente dominante do estatismo — geralmente de esquerda — no cenário político, defende bandeiras inovadoras (para os padrões brasileiros) como a redução das dimensões e abrangência do Estado (que só assim poderia almejar qualidade e eficiência em funções clássicas: educação básica, saúde, segurança e infraestrutura) e a centralidade no indivíduo. A proposta do NOVO não é libertária (entenda-se: minarquista ou anarcocapitalista), é de cunho liberal.

A seu modo, a reportagem da ‘Vejinha’ expôs essas bandeiras, com algum erro conceitual do repórter ou editor – falou-se em “liberdade para acumulação de riquezas” ao invés de geração de riquezas, termo mais apropriado, afinal, não faz sentido, na era do capitalismo financeiro, pensar em acúmulo quando mesmo o dinheiro “parado” num banco está sendo investido, pois emprestado para outros empreendimentos. No caso do empreendedor, parte do excedente também deve ser reinvestida caso queira manter-se competitivo e auferir mais lucros. Da mesma forma, seu gasto crescente em função da elevação de seu padrão de vida distribui riqueza entre outros produtores.

Cabe dizer que estranhei a comparação entre os grupos, algo como comparar água e gasolina apenas por serem líquidos. Considero "opostos" coisas refletidas, dispostas num mesmo patamar, eventualmente próximas (estou reformando meu diagrama que procura ilustrar esse dimensionamento). O oposto de um liberal, portanto, seria um social-democrata, enquanto o oposto de um socialista seria um fascista.

Um quadro comparativo entre os jovens do NOVO e a juventude do vandalismo politizado dos BBs provocou desconfiança entre os entusiastas do partido no que diz respeito à idoneidade da reportagem: no item “figurino”, enquanto o dos BBs foi descrito com “peças pretas e rosto coberto”, àqueles coube “roupas de grife”. Decerto uma ideia brilhante de algum editor ou qualquer outro responsável pelo quadro, que olhou para a foto de Igor, Ana Luiza e Andrew e, observando provavelmente a indumentária deste último, inseriu uma frivolidade que incendiou a sanha classista.

Ayn Raid (sic)

Muito mais que as ideias (mesmo o errôneo “acumulação de riqueza”), a crítica que choveu sobre os jovens politizados — inaceitavelmente não alinhados a alguma das infindáveis correntes de esquerda disponíveis no mercado — pautou-se pelas supostas roupas de grife, que, imagina!, nenhum dos BBs também usa (tampouco registram orgulhosamente seus atos de destruição com iPhones). Teve início o repertório sociológico cuja variedade equipara-se ao de um papagaio: “coxinhas!”, entre as ladainhas de sempre contra o neonliberalismo, uma espécie de digievolução do capitalismo, igualmente culpado por todos os males do mundo desde talvez a Antiguidade.

O ódio é supostamente um sentimento combatido pelas esquerdas. Com um trabalho de décadas no âmbito cultural, as esquerdas conseguiram vender a ideia de que detêm o monopólio da generosidade, da paz, do amor, da tolerância e da verdadeira igualdade entre “raças”, etnias, orientações sexuais, religiões e o que mais sirva para os cafetões de minoria descolarem uns trocados políticos. Os teóricos e práticos (estes geralmente sanguinários) do “socialismo científico” não se preocuparam com isso, mas seus admiradores aprenderam, com a desgraça do socialismo no século XX, que a revolução deveria ser cultural e extensiva. Tornemos, pois, o ódio, o racismo e outros elementos abomináveis da humanidade em estandartes da direita.

Existe um ódio, porém, que é correto, politicamente: o de classe. Digamos que se trata da práxis da teoria do ódio ao capitalismo, forma mais abstrata (sobre este sentimento em relação ao sistema econômico que, longe das promessas de paraíso terreno feitas pelo atroz socialismo, trouxe a maior prosperidade que a humanidade já conheceu, é extremamente importante a leitura d’A Mentalidade Anticapitalista, de Ludwig von Mises). Toda sorte de insulto é louvável, manifestar o desejo de violência física é puro senso de justiça social, a menção categórica à cor de pele é obrigatória — enfim, é dever do bondoso esquerdista tratar qualquer indivíduo que pareça ter mais dinheiro que a “nova classe média” lulística como lixo da humanidade, cuja morte violenta é um ideal utópico (louvado, porém, quando perpetrado pelo revolucionário oculto do esquerdismo: o bandido comum).

Vestir-se bem para trabalhar: ao que tudo indica, um crime ideológico

Andrew, à direita (!), foi o maior alvo do ódio politicamente correto. Entrevistado e fotografado após o trabalho, trajava a vestimenta que lhe impõe o empregador opressor & explorador: social [quase] completo. Como empregado, Andrew caberia, na visão classista, na caixinha do “proletário do colarinho branco”. Ora, a teoria marxista afirma que, não importa o salário que receba um trabalhador, sempre essa quantia será muito menor do que a riqueza que ele gera para a empresa. Andrew tem, portanto, suas “mais-valias extraídas”, é um explorado, é o oprimido desse mundo binário do processador LeftCore. A rigor, deveria contar com a solidariedade, não com o ódio dos classistas.

Lógica, porém, não compõe seu pensamento. Trabalhar sistematicamente com contradições planejadas é algo fundamental na prática e na difusão do ideário socialista. Outro ponto do caso em questão: a revista Veja, sempre detestada como veículo de comunicação sujo, mentiroso e manipulador, de repente pautou o deboche e a virulência de seus inimigos de sempre contra um alvo mais nocivo: jovens que ousam envolver-se com política que não a ditada pelo programa revolucionário. Estranhamente, as distorções e mensagens maliciosas da publicação deixaram de ser questionadas, pelo visto nunca existiram, Veja passou a ter credibilidade entre “a crítica” (sinônimo de marxismo, claro).

A despeito dos ganchos para o transbordo da esquerdopatia (a psicopatia ideologizada à esquerda), no saldo, a matéria reportou razoavelmente a proposta do NOVO. Não existe problema algum em jovens interessados em política reunirem-se no Leblon. O humanitarismo e a vontade de que todos possam buscar uma vida melhor com seu trabalho não é propriedade privada das esquerdas — muito pelo contrário, esta acredita que só o poder estatal a transferir um montante fixo de riqueza (daí se vê sentido no “acumular”) conferirá felicidade aos pobres, esses incapazes, dóceis, alienados. Aos ricos, cabe o destino de financiar a justiça social progressivamente até empobrecerem ao gosto do que a esquerda iluminada considerar justo. Um mundo ideal — sem ricos e sem pobres, onde a tributação redentora não terá mais sobre quem incidir, até que a conta daquele ódio do bem venha e recaia sobre todos (agora pobres) democraticamente, exceto sobre os generosos heróis da humanidade que enriqueceram e estabeleceram-se como a “nova classe alta”, ou seja, a casta burocrática do Estado máximo.
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Cabelos crespos e juízos embaraçados

25 de janeiro de 2013
O maior arranca-rabo da semana certamente é a discussão em torno do post no site da maternidade do hospital Santa Joana, sobre alisamento de cabelos crespos de crianças.

Meu sr., minha sra., é tão simples não fazer juízo de valor, informar sem discriminar. Mas não, a anta do redator ou redatora não podia se limitar a dizer "com a adesão cada vez maior às técnicas de alisamento, algumas mães recorrem a essas alternativas" — tinha que justificar com "para deixarem as crianças mais bonitas". Não se é aqui a favor de as pessoas serem cheias de dedos na hora de falar ou escrever, o que preocupa é que haja sinceramente esse juízo de valor.

Ela seria mais bonita com cabelos lisos?
Sem hipocrisia: a bebê preta da foto que ilustra o post da maternidade (uma graça, cuja foto, aqui reproduzida, obviamente foi googlada e decerto provém de uma agência de modelos mirins) ficaria mais bonita com os cabelos alisados? Moças e mulheres que interferem em sua estética o fazem por opção própria (ainda que influenciadas por uma "imposição de padrão de beleza" etc.) e podem ficar mais bonitas ou mais feias quando o fazem, mas artificializar o cabelo de uma criança, de forma constante e, principalmente, apenas por fins estéticos, é tão dispensável quanto passar-lhe maquiagem. Cabe aos pais julgar a intervenção que farão na natureza de seus filhos, mas é direito de qualquer pessoa julgar algumas intervenções como estupidez.

Orkutizou-se a acusação de racismo, mas também orkutizou-se a acusação de patrulha. Deve-se aprender a observar os casos e suas sutilezas em vez de ater-se a julgamentos rápidos e fáceis. Um fato: houve discriminação entre cabelos lisos e crespos quando aqueles foram definidos necessariamente mais bonitos. A cereja do bolo de merda desse post da maternidade é ilustrar o "texto informativo" apenas com uma criança preta, o que justifica, sim, a grita dos militantes com acusações de racismo. Por que não colocaram, também, umas duas fotos de meninas brancas com cabelos crespos? A acusação de discriminação contra cabelos crespos se manteria, mas a de racismo cairia por terra. Não é questão de se policiar, mas de ter uma simples noção do que se afirma.

Claro que a militância não sai incólume nessa sequência de cagadas: segundo a matéria acima linkada, um ativista teria dito que a publicação "ajuda a alimentar a exigência de uma beleza que não é a brasileira", esquecendo que cabelos lisos são, exatamente por nossa multietnicidade, beleza brasileira igualmente aos crespos e a todos os outros tipos.

Da galera do "não é pra tanto", cheguei a ler absurdos como ser interessante ter a opção alisar os cabelos, pois crianças com cabelos crespos tendem a sofrer bullying. Mas, então, a culpa é da vítima? É exatamente a mesma lógica da mulher culpada por andar de saia curta (MACHISMO, 2013), da pessoa culpada por "ostentar" seu bem material (SAKAMOTO, 2012) ou do loiro de olhos azuis que carrega a marca™ das elites (LEÃO, 2011).

Portanto, concordo que o post, se quisesse informar, deveria, sim, falar além de questões químicas, como levantar questionamentos a respeito da real necessidade (não apenas motivação) em intervir na natureza dos cabelos de crianças, ou, ainda, dar dicas de como pentear cabelos crespos sem machucar, entre outros aspectos do assunto. A maternidade, em nota, afirma que "não quis ofender", "não era a intenção" — ou seja, ainda por cima dispõe de manés também na assessoria de imprensa. Nunca é a intenção, nesses casos, realmente. Disso não duvido. Isso apenas, porém, não basta para isentar-se de responsabilidade.

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O rumo petista ao socialismo

28 de setembro de 2012
Pergunta-se um esquerdista, moderado ou radical, desiludido com a práxis do Partido dos Trabalhadores: o PT, hoje, é o caminho para o socialismo?

Sim. No entanto, estamos falando do socialismo que "aprendeu com os erros" do socialismo real, os erros de tomar o poder e manter seu domínio à força, acintosamente. Trata-se do neossocialismo, o socialismo progressista, o socialismo sustentável (!), que não será implementado através da revolução, mas das vias democráticas "burguesas". Diferentemente dos PCOs e PSTUs da vida que nunca vão conseguir nada além das atuais boquinhas de verba pública, pois não se modernizaram. A estes partidos de extrema-esquerda ortodoxa restará lutar por "diretas já" para reitor na USP, desejosos de — aproveitando sua força política ao menos no movimento estudantil — eleger um reitor do partido, o que lhes proporcionará um pouco mais de relevância política e moeda de troca junto aos governos "burgueses" estaduais. Ou acham que esse papo de diretas pra reitor é amor à democracia? Nada disso; ambicionam mesmo é a ampla autonomia universitária — que eventualmente até tribunais preferem não confrontar, como no recente caso em que a reitoria haveria vetado o debate entre candidatos à prefeitura de São Paulo em uma de suas faculdades — exatamente para lograr transformar a USP numa ilha socialista, ou o máximo que se chegue perto disso.

Atlas, mas poderia ser qualquer trabalhador.
Já o projeto do PT não visa a extirpar a livre iniciativa. Apenas se aumentarão os tributos de modo que o Estado seja um sócio, que nada investe, com uma fatia cada vez maior do resultado do trabalho daqueles que produzem. O investimento estatal será cada vez mais amplo e difuso, e, à medida que os serviços prestados forem sempre ruins ou regulares, que os "direitos" a serem garantidos pelo Estado forem cada vez mais abrangentes e específicos (lembrando: garantir direitos cu$ta), e que as pessoas forem cada vez mais educadas a exigir que "o governo dê", ainda mais o Estado será legitimado a sugar riquezas de seus cidadãos (podemos pensar, por exemplo, na máxima dos 10% do PIB pra educassaum, o mantra mais difundido da atualidade), sejam eles ricos, pobres ou medianos; aqueles, porém, sempre vão dispor de melhores instrumentos para contornar o peso estatal e social.

A expansão dos auxílios econômicos diretos (redistribuição de renda) manterá um eleitorado fiel ao projeto do Partido, que assim poderá se perpetuar indefinidamente no poder, democraticamente. Caminhar-se-á cada vez mais rumo ao sonho marxista do "de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades", tragédia esta que Ayn Rand magistralmente exemplificou, na ficção A Revolta de Atlas, na realidade de uma simples fábrica de motores.

Em suma, o PT é o melhor (mais competente) partido de esquerda brasileiro, o mais apto a levar o país ao socialismo; o problema reside no fato de que este regime sócio-político-econômico, diferentemente do que muitos professores do Ensino Médio e universitários ensinam, não se trata de algo bom para o futuro dos povos.

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A carência e o esquerdismo

22 de junho de 2012
O neossocialista, carente dos revolucionários que abolirão a propriedade privada, tem no assaltante de uma loja, ou mesmo residência, sua catarse ideológica.

Sakamoto versão lek zuera

Os leitores de Leonardo Sakamoto encontraram tal alívio em seu recente texto. Surpreendente pela profundidade de uma poça (a sujeira também se compara), um texto de se esperar de um esquerdista colegial — desses que estão começando, acreditam na justiça social em Cuba e no capitalismo como sinônimo ou progenitor de todos os males da personalidade humana e das relações sociais, essas coisas — não para um doutor em Ciência Política.

"Blog do Sakamoto: Direitos Humanos, Trabalho Decente, Assaltante Inocente"

Hoje, um professor comentou sobre quão desamparados ficaram os professores de sua época de graduação em Direito, concomitante ao fim do regime militar no Brasil; intelectuais que, de maneira coesa, opuseram-se ao regime e exaltavam a democracia. Conquistada a redemocratização, observou-se a pulverização das ideologias, a carência por toda uma admiração em torno desses baluartes. Seriam também "viúvas da ditadura".

Quase comentei — só não o fiz pelo horário avançado da aula (ele ainda iria longe) — que não existiam apenas essas viúvas, mas também os órfãos que não chegaram a conhecer os pais, ou seja, os jovens militantes que parecem lamentar não haver tido o privilégio de viver sob o jugo e lutar contra uma ditadura. Frustrados, afirmam categoricamente que permanecem em uma, contra a qual lutam proporcionalmente.

Ao lado das drogas lícitas ou ilícitas, da arte, do esporte ou qualquer outra atividade ou produto humano que vise a proporcionar prazer e entretenimento, a revolta contra o fantasma repressor/opressor nada mais é que outro tipo de brisa. Invadir a reitoria deve ter proporcionado mais prazer aos praticantes que a usual maconha — ainda que esta seja um relaxante, enquanto aquela um estimulante, a comparação se faz pertinente por esta plantinha estar eventualmente envolvida com o estopim todo, dessa vez.

Lembro, de meus tempos de esquerdista, de uma manifestação contra o aumento da passagem de ônibus, em 2006, sob a administração de Gilberto Kassab na prefeitura de São Paulo. A manifestação estava uma maravilha, realmente era bom gritar a plenos pulmões contra algo que se achava injusto (continuo considerando o valor das passagens em São Paulo muito elevado, só não mais penso que remunicipalização seja a solução — já quanto ao passe livre, mesmo nessa época sempre discordei, e me estranhava por ter pensamento próprio em meio a todo um receituário comum ao coletivo); em algum momento, uma vanguarda doidivanas (sempre ela) resolveu direcionar a massa para o terminal de ônibus Pq. Dom Pedro, no centro da cidade, já perto do horário de pico da tarde. Contrariado, observei cenas e atos que me ajudaram a perceber a intransigência, o egoísmo e a avidez pelo descontrole presente nos jovens esquerdistas, mas estes ocorridos deixo para depois. Houve confronto com a polícia, claro, e — o que também me ajudou a enxergar certas coisas — indignação da população ali presente, em sua maioria trabalhadores com intenção de voltar pra casa.

Dispersado o grupo, fui caminhando por algum calçadão da região da Sé, quando a poucos metros escutei uma menina, revoltada, comentando, com um grito misto de indignação e tristeza, a seus outros amigos manifestantes: "E ainda dizem que a gente não vive numa ditadura!" Eu, que à época me definia como "esquerdista heterodoxo com tendências socialistas e social-liberais", já tinha um certo realismo em relação ao socialismo, mas ainda acreditava na superpotencialidade do Estado para promover o bem-estar social tanto quanto no poder de destruição inerente do sistema econômico capitalista liberalizado. Ao ouvir a secundarista dizendo tal abobrinha, pensei: "Mas quem disse que democracia é oba-oba?", como se repressão fosse uma particularidade das ditaduras, e não um elemento normal e necessário, em certo grau, num regime democrático. Não disse e segui, curtindo a melancolia de um protesto que não acabou legal como no dia anterior.

O problema não foi o confronto com a polícia, mas a nítida insistência dos manifestantes em obtê-lo. Manifestação sem repressão não tem graça para o esquerdista. É preciso bloquear um terminal de ônibus, ocupar todas as faixas de uma via pública, depredar alguma instalação pública. É a expressão da falta, da carência pueril da autoridade imposta, que, então, pode ser prazerosamente confrontada.

Não se faz aqui uma ode ao conformismo, à letargia. Apenas se apresenta, a partir dos diferentes eventos em circunstâncias diversas aqui descritos, a falta como elemento fulcral da personalidade do esquerdista comum. Obviamente, romantiza-se esta carência como uma consciência social, aquele tremelique de indignação da frase atribuída a Che Guevara; entretanto, a realidade só faz desmitificar (não é "desmistificar") a heroica sede de justiça [social], que se revela, em muitos casos, como pura intolerância e desejo íntimo pela reafirmação da crença pessoal em uma dicotomia oprimidos-opressores tão bem definidos quanto o contraste entre as cores preta e branca.

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Futebol com pezinho no MMA

17 de dezembro de 2011
Não faz muito tempo que aprecio as artes marciais mistas, ou mixed martial arts (MMA), essa evolução do vale-tudo (evolução positiva, de muito bom gosto, vale mencionar). Talvez por não ter TV paga — opção desde sempre aqui em casa, por desinteresse geral que não compen$aria contratar tal serviço. Aí temos que a realidade é moldada de acordo com o que a TV aberta (Globo stricto sensu) escolhe exibir ou não, então MMA non ecziste. Ok, a Rede TV! (sic) exibia, mas não era lá tão estimulante, tanto por sua produção e transmissão quanto por ser gravado. Afinal, temos o YouTube para assistir às coisas posteriormente a sua exibição ao vivo!

Mas a internet e redes sociais quebram as barreiras da seleção midiática, e você tem um e outro amigo fãzaço que sempre compartilha um pitaco ou um vídeo (no meu caso, Carlos Henrique, autor d'O CH!). O portal de seu servidor de e-mail também dedica mais e mais matérias, o Twitter bomba em noites de UFC, então uma hora a curiosidade distante cede espaço à apreciação efetiva. Foi assim, e, após uma e outra edição em que não me entusiasmei muito, o UFC Rio, transmitido ao vivo pela Rede TV!, me despertou o interesse real pelo esporte.

Esporte! É bom sublinhar. Lembro das críticas que ouvia quando criança a respeito do boxe, e, mais tarde, sobre o vale-tudo, algo que nem sabia do que se tratava, de que nem vira qualquer exibição. O próprio Professor Girafales já contribuía em podar qualquer interesse pueril nas lutas. Acredito que todos compartilhamos empaticamente da vergonha de Chaves e Quico quando do sermão do mestre abominando "esse esporte selvagem, violento, brutal", na fadada tentativa de Seu Madruga introduzi-los ao esporte.

De fato, o vale-tudo evoluiu como esporte, e o MMA se legitima cada vez mais como tal. Existe violência, porém, o desenvolvimento da modalidade a profissionalizou, instituiu mais limites e conceitos, valorizou a técnica conjugada à força, o que diferencia brigas de lutas. A violência foi submetida à civilização. Isso é esporte.

Qual o animal que faz miau e come rato? / Ah, o gato! / Que te chuta com o sapato!

No UFC Rio, Anderson "The Spider" Silva exibia o escudo do Corinthians, enquanto Antônio Rodrigo "Minotauro" Nogueira vestia a camisa, digo, os shorts do Internacional. A versão oficial é que o pequeno Anderson chegara atrasado a uma peneira do Curíntia e por essa razão lhe disseram: NUNCA SERÃO; ele, desanimado, viu logo ali uma academia de boxe, começou a treinar e deu no que deu, tornou-se o cara. Os conspiracionistas afirmam que ele sempre foi torcedor do Coritiba e toda a versão oficial é mentirosa. Falsificações históricas existem, aos montes e a todo momento — como no caso emblemático da foto de Norma Bengell, jovem, protestando contra a ditadura, "interpretada erroneamente" como sendo Dilma em seu blog da campanha de 2010. Claro, o erro foi de quem interpretou: só porque Norma estava em destaque num recorte de três fotos que mostravam Dilma criança, Norma no meio e Dilma ministra? Quem interpretou que a intenção era de que a moça do meio fosse a Dilma jovem é que se enganou, correto? PEEERRRRM, errado, a equipe de marketing quis ser malandra e disfarçar a modalidade escolhida por Dilma no protesto contra a ditadura  — ela não era de passeatas, mas da luta armada, via esta bem impopular, e tal atividade não tem registros fotográficos abertos que esbanjem mobilização popular.

Se você entendeu que a do meio também seria a Dilma, cometeu "interpretação equivocada".

Voltando ao Sport Club Corinthians Paulista, verdade ou não, a versão oficial de Spider corintiano procura agregar afeto ao patrocínio cru. O caso do Minotauro parece mais transparente, espero que não tenham inventado como um menino de Vitória da Conquista foi conhecer e torcer por um time de Porto Alegre. Sem regionalismos (bitch, please), é apenas uma questão de distância geográfica e não-alinhamento do time gaúcho ao eixo Rio-São Paulo, cujos clubes geralmente têm mais popularidade Brasil afora.

A indústria do futebol indica querer usufruir da popularidade emergente do MMA. Para um esporte que começa a ser bem visto socialmente agora, pode-se ponderar se seria esta uma boa convivência. O MMA provém de um histórico de rejeição social e midiática; numa fase em que tenha se desenvolvido profissionalmente, seria benéfico associar-se a um esporte que, deploravelmente, tem um amplo registro de violência de parte de sua torcida? A preocupação aqui é sobre até que ponto a violência nos estádios pode transmitir-se em violência nos ginásios, à medida que o fanatismo a clubes de futebol venha a se estender aos atletas de MMA patrocinados pelos respectivos clubes. Caso isso ocorra, decerto os questionamentos moralizantes recairão sobre o esporte de luta ("de luta" não no sentido delubiano da coisa, claro).

De um lado, um esporte que estipula limites, técnica e objetivos razoáveis à violência — que pode servir de estímulo a pessoas de todos os tipos para procurarem a prática de artes marciais visando a inúmeros benefícios, inclusive a disciplina no uso da força. De outro, um esporte cujo gosto popular exaltado ocasiona eventos de violência, maloqueiragem, vandalismo e brutalidade generalizada, sem uma repressão eficaz, tamanha a sua difusão e ação coletiva. Mas, numa pressão moralizante, os valores se inverteriam muito facilmente, conhecendo o modo torto como normalmente se pensa por aqui. A culpa poderá muito bem ser apontada a esse esporte "violento e selvagem". Lembremos que a venda de Counter-Strike foi proibida porque o jogo estimula a afronta à ordem e ao estado (o argumento do juiz foi algo do tipo, googlem); prefiro não comentar essa estupidez. Recordemos também que as professoras no jardim de infância e primeiras séries do Fundamental censuravam quando dois amigos simulavam movimentos de Street Fighter sem nem sequer tocar um no outro, enquanto os bullies agem livres e impunes em todos os níveis de ensino.

O futebol está com um pé no MMA, e esse não é o pé que desfere um chute plástico e leal de uma arte marcial. Pode também não vir a ser o pé na bola que dá o nome ao esporte — mas o pé com tênis Nike Shox, Oakley, entre outras grifes falsificadas ou não, que chuta e pisoteia covardemente alguém que cometeu a infração grave de usar a camisa de um outro time.

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