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Diagrama de Lemes: uma proposta

| 1 de maio de 2013

Considerada a insuficiência contemporânea das noções lineares e bipolarizadas de "esquerda" e "direita", ou a confusão de conceitos do Diagrama de Nolan (feito por libertários, para libertários, assim avalio), contribuo com esta primeira versão do diagrama cujo objetivo é aprimorar a visualização do velho espectro político-ideológico, mantendo a dicotomia entre esquerda e direita (eixo horizontal) e adotando formatos circulares que ilustrem o fenômeno da proximidade dos extremos, sejam estes de viés totalitário ou libertário (eixo vertical).

Vale observar que os conceitos de socialismo e comunismo são ora tratados conforme a teoria marxista – de Marx, mais exatamente. Portanto, é desconsiderada a experiência do socialismo real ou o conceito de "socialismo democrático", devaneio pós-marxista.

Diagrama de Lemes em sua primeira versão

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Cabelos crespos e juízos embaraçados

| 25 de janeiro de 2013
O maior arranca-rabo da semana certamente é a discussão em torno do post no site da maternidade do hospital Santa Joana, sobre alisamento de cabelos crespos de crianças.

Meu sr., minha sra., é tão simples não fazer juízo de valor, informar sem discriminar. Mas não, a anta do redator ou redatora não podia se limitar a dizer "com a adesão cada vez maior às técnicas de alisamento, algumas mães recorrem a essas alternativas" — tinha que justificar com "para deixarem as crianças mais bonitas". Não se é aqui a favor de as pessoas serem cheias de dedos na hora de falar ou escrever, o que preocupa é que haja sinceramente esse juízo de valor.

Ela seria mais bonita com cabelos lisos?
Sem hipocrisia: a bebê preta da foto que ilustra o post da maternidade (uma graça, cuja foto, aqui reproduzida, obviamente foi googlada e decerto provém de uma agência de modelos mirins) ficaria mais bonita com os cabelos alisados? Moças e mulheres que interferem em sua estética o fazem por opção própria (ainda que influenciadas por uma "imposição de padrão de beleza" etc.) e podem ficar mais bonitas ou mais feias quando o fazem, mas artificializar o cabelo de uma criança, de forma constante e, principalmente, apenas por fins estéticos, é tão dispensável quanto passar-lhe maquiagem. Cabe aos pais julgar a intervenção que farão na natureza de seus filhos, mas é direito de qualquer pessoa julgar algumas intervenções como estupidez.

Orkutizou-se a acusação de racismo, mas também orkutizou-se a acusação de patrulha. Deve-se aprender a observar os casos e suas sutilezas em vez de ater-se a julgamentos rápidos e fáceis. Um fato: houve discriminação entre cabelos lisos e crespos quando aqueles foram definidos necessariamente mais bonitos. A cereja do bolo de merda desse post da maternidade é ilustrar o "texto informativo" apenas com uma criança preta, o que justifica, sim, a grita dos militantes com acusações de racismo. Por que não colocaram, também, umas duas fotos de meninas brancas com cabelos crespos? A acusação de discriminação contra cabelos crespos se manteria, mas a de racismo cairia por terra. Não é questão de se policiar, mas de ter uma simples noção do que se afirma.

Claro que a militância não sai incólume nessa sequência de cagadas: segundo a matéria acima linkada, um ativista teria dito que a publicação "ajuda a alimentar a exigência de uma beleza que não é a brasileira", esquecendo que cabelos lisos são, exatamente por nossa multietnicidade, beleza brasileira igualmente aos crespos e a todos os outros tipos.

Da galera do "não é pra tanto", cheguei a ler absurdos como ser interessante ter a opção alisar os cabelos, pois crianças com cabelos crespos tendem a sofrer bullying. Mas, então, a culpa é da vítima? É exatamente a mesma lógica da mulher culpada por andar de saia curta (MACHISMO, 2013), da pessoa culpada por "ostentar" seu bem material (SAKAMOTO, 2012) ou do loiro de olhos azuis que carrega a marca™ das elites (LEÃO, 2011).

Portanto, concordo que o post, se quisesse informar, deveria, sim, falar além de questões químicas, como levantar questionamentos a respeito da real necessidade (não apenas motivação) em intervir na natureza dos cabelos de crianças, ou, ainda, dar dicas de como pentear cabelos crespos sem machucar, entre outros aspectos do assunto. A maternidade, em nota, afirma que "não quis ofender", "não era a intenção" — ou seja, ainda por cima dispõe de manés também na assessoria de imprensa. Nunca é a intenção, nesses casos, realmente. Disso não duvido. Isso apenas, porém, não basta para isentar-se de responsabilidade.

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O rumo petista ao socialismo

| 28 de setembro de 2012
Pergunta-se um esquerdista, moderado ou radical, desiludido com a práxis do Partido dos Trabalhadores: o PT, hoje, é o caminho para o socialismo?

Sim. No entanto, estamos falando do socialismo que "aprendeu com os erros" do socialismo real, os erros de tomar o poder e manter seu domínio à força, acintosamente. Trata-se do neossocialismo, o socialismo progressista, o socialismo sustentável (!), que não será implementado através da revolução, mas das vias democráticas "burguesas". Diferentemente dos PCOs e PSTUs da vida que nunca vão conseguir nada além das atuais boquinhas de verba pública, pois não se modernizaram. A estes partidos de extrema-esquerda ortodoxa restará lutar por "diretas já" para reitor na USP, desejosos de — aproveitando sua força política ao menos no movimento estudantil — eleger um reitor do partido, o que lhes proporcionará um pouco mais de relevância política e moeda de troca junto aos governos "burgueses" estaduais. Ou acham que esse papo de diretas pra reitor é amor à democracia? Nada disso; ambicionam mesmo é a ampla autonomia universitária — que eventualmente até tribunais preferem não confrontar, como no recente caso em que a reitoria haveria vetado o debate entre candidatos à prefeitura de São Paulo em uma de suas faculdades — exatamente para lograr transformar a USP numa ilha socialista, ou o máximo que se chegue perto disso.

Atlas, mas poderia ser qualquer trabalhador.
Já o projeto do PT não visa a extirpar a livre iniciativa. Apenas se aumentarão os tributos de modo que o Estado seja um sócio, que nada investe, com uma fatia cada vez maior do resultado do trabalho daqueles que produzem. O investimento estatal será cada vez mais amplo e difuso, e, à medida que os serviços prestados forem sempre ruins ou regulares, que os "direitos" a serem garantidos pelo Estado forem cada vez mais abrangentes e específicos (lembrando: garantir direitos cu$ta), e que as pessoas forem cada vez mais educadas a exigir que "o governo dê", ainda mais o Estado será legitimado a sugar riquezas de seus cidadãos (podemos pensar, por exemplo, na máxima dos 10% do PIB pra educassaum, o mantra mais difundido da atualidade), sejam eles ricos, pobres ou medianos; aqueles, porém, sempre vão dispor de melhores instrumentos para contornar o peso estatal e social.

A expansão dos auxílios econômicos diretos (redistribuição de renda) manterá um eleitorado fiel ao projeto do Partido, que assim poderá se perpetuar indefinidamente no poder, democraticamente. Caminhar-se-á cada vez mais rumo ao sonho marxista do "de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades", tragédia esta que Ayn Rand magistralmente exemplificou, na ficção A Revolta de Atlas, na realidade de uma simples fábrica de motores.

Em suma, o PT é o melhor (mais competente) partido de esquerda brasileiro, o mais apto a levar o país ao socialismo; o problema reside no fato de que este regime sócio-político-econômico, diferentemente do que muitos professores do Ensino Médio e universitários ensinam, não se trata de algo bom para o futuro dos povos.

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A carência e o esquerdismo

| 22 de junho de 2012
O neossocialista, carente dos revolucionários que abolirão a propriedade privada, tem no assaltante de uma loja, ou mesmo residência, sua catarse ideológica. Em outras palavras, sendo improvável transar com uma pornstar, alivia-se com uma punhetinha.

Sakamoto versão lek zuera

Os leitores de Leonardo Sakamoto encontraram tal alívio em seu recente texto. Surpreendente pela profundidade de uma poça (a sujeira também se compara), um texto de se esperar de um esquerdista colegial, desses que estão começando, acreditam na justiça social em Cuba e no capitalismo como sinônimo ou progenitor de todos os males da personalidade humana e das relações sociais, essas coisas — não para um doutor em Ciência Política; ainda que inúmeras passagens de seus textos sejam de uma birutice usual.

"Blog do Sakamoto: Direitos Humanos, Trabalho Decente, Assaltante Inocente."

Hoje, um professor comentou sobre quão desamparados ficaram os professores de sua época de graduação em Direito, concomitante ao fim do regime militar no Brasil; intelectuais que, de forma coesa, se opuseram ao regime e exaltavam a democracia. Conquistada esta, observou-se a pulverização das ideologias, a carência por toda uma admiração em torno desses baluartes. São as "viúvas" da ditadura.

Quase comentei — e só não o fiz pelo horário avançado da aula (ele ainda iria longe) e por preguiça de irritar algum esquerdista presente com uma obviedade — que não existiam apenas essas viúvas, mas também os órfãos que não chegaram a conhecer os pais, ou seja, os jovens militantes que parecem lamentar não terem tido o privilégio de viver sob o jugo e lutar contra uma ditadura. Frustrados, afirmam categoricamente que permanecem em uma, contra a qual lutam proporcionalmente.

Tenho a teoria de que, ao lado das drogas lícitas ou ilícitas, da arte, do esporte ou qualquer outra atividade ou produto humano que vise a proporcionar prazer e entretenimento, a revolta contra o fantasma repressor/opressor nada mais é que outro tipo de brisa. Invadir a reitoria deve ter proporcionado mais prazer aos praticantes que a usual maconha — ainda que esta seja um relaxante, enquanto aquela um estimulante, a comparação se faz pertinente por esta plantinha estar eventualmente envolvida com o estopim todo.

Lembro, de meus tempos de esquerdista, de uma manifestação contra o aumento da passagem de ônibus, em 2006, sob a administração de Gilberto Kassab na prefeitura de São Paulo. A manifestação estava uma maravilha, realmente era bom gritar a plenos pulmões contra algo que se achava injusto (continuo considerando o valor das passagens em São Paulo muito elevado, só não mais penso que remunicipalização seja a solução — já quanto ao passe livre, mesmo nessa época sempre discordei, e me estranhava por ter pensamento próprio em meio a todo um receituário comum ao coletivo); em algum momento, uma vanguarda doidivanas (sempre ela) resolveu direcionar a massa para o terminal de ônibus Pq. Dom Pedro, no centro da cidade, já perto do horário de pico da tarde. Contrariado, observei cenas e atos que me ajudaram a perceber a intransigência, o egoísmo e a avidez pelo descontrole presente nos jovens esquerdistas, mas estes ocorridos deixo para depois. Houve confronto com a polícia, claro, e — o que também me ajudou a enxergar certas coisas — indignação da população ali presente, em sua maioria trabalhadores com intenção de voltar pra casa.

Dispersado o grupo, fui caminhando por algum calçadão da região da Sé, quando a poucos metros escutei uma menina, revoltada, comentando, com um grito misto de indignação e tristeza, a seus outros amigos manifestantes: "E ainda dizem que a gente não vive numa ditadura!" Eu, que à época me definia como "esquerdista heterodoxo com tendências socialistas e social-liberais", já tinha um certo realismo em relação ao socialismo, mas ainda acreditava na superpotencialidade do Estado para promover o bem-estar social e na destrutividade inerente do sistema econômico capitalista liberalizado. Ao ouvir a secundarista dizendo tal abobrinha, minha vontade foi dizer "Mas quem disse que democracia é oba-oba?", como se repressão fosse uma particularidade das ditaduras, e não um elemento normal e necessário, em certo grau, num regime democrático. Não disse e segui, curtindo a melancolia de um protesto que não acabou legal como no dia anterior.

O problema não foi o confronto com a polícia, mas a nítida insistência dos manifestantes em obtê-lo. Manifestação sem repressão não tem graça para o esquerdista. É preciso bloquear um terminal de ônibus, ocupar todas as faixas de uma via pública, depredar alguma instalação pública. É a expressão da falta, da carência pueril da autoridade imposta, que, então, pode ser prazerosamente confrontada.

Não se faz aqui uma ode ao conformismo, à letargia. Apenas se apresenta, a partir dos diferentes eventos em circunstâncias diversas aqui descritos, a falta como elemento fulcral da personalidade do esquerdista comum. Obviamente, romantiza-se esta carência como uma consciência social, aquele tremelique de indignação da frase atribuída a Che Guevara; entretanto, a realidade só faz desmitificar (não é "desmistificar") a heroica sede de justiça [social], que se revela, em muitos casos, como pura intolerância e desejo íntimo pela reafirmação da crença pessoal em uma dicotomia oprimidos/opressores tão bem definidos quanto o contraste entre as cores preta e branca.

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Involuntária transparência natalina

| 24 de dezembro de 2011
Todo ano, mesma lenga-lenga: por um lado, costumes importados do hemisfério norte, com alguns aspectos que estamos cansados de saber não fazer sentido em terras tropicais: neve, pinheirinho, Noel com suas roupas de frio, comidas pesadas e secas, e alguma outra coisa que não me recorde; aspectos estes muito mais assimilados que o Halloween/Dia das Bruxas (época em que os chatonildos pedem Curupira e mula sem cabeça no lugar de bruxas e vampiros). Por outro lado, pessoas conscientes do "verdadeiro" espírito de Natal, que seria o nascimento do Jesus, o Deus Menino, e todo sentimento transmitido pelo Filho de Deus em sua passagem pela terra: amor, compaixão, paz.

Geralmente, a consciência e o consumo não se excluem. Quem prega aquela pratica este. A manifestação mais comum, no entanto, é da face "consumista": por mais que haja um discurso de "conscientização", não se vê espaço para muitos rituais religiosos ou que remetam a Jesus Cristo — a não ser aquelas canções "cristãs" que inspiram mais melancolia do que paz e alegria  — como se observa a boa comida e distribuição de presentes. Há grupos familiares ou indivíduos que sinceramente apreciam a união ou reunião promovida no Natal, sentem verdadeiro afeto por seus entes queridos e uma magia especial em expressá-lo nesse evento, com um abraço e votos de Feliz Natal; outros estão constrangedoramente atrelados a uma convenção social. Convencional ou verdadeira, a "magia do Natal" é intimamente ligada às benesses materiais.

O "consumismo", apesar de tudo, demonstra ser mais transparente e honesto que o parâmetro  "consciente" do Natal. Não há muita diferença entre ambos, considerando-os embustes, cada qual a sua forma.

Engodo original: aquilo que muitos (infelizmente não todos) sabemos mesmo que por cima. A época que conhecemos como Natal tratara-se de uma adaptação e assimilação de costumes e rituais de culturas e religiões pagãs com fins de se conseguir mais adeptos para a religião cristã; uma das campanhas de marketing mais bem-sucedidas da História, perpetrada pela Igreja Católica, que, quase meio milênio após a passagem de Jesus, decerto já haveria se distanciado e muito dos valores originais transmitidos pelo Cristo. Há quem saiba desse bafafá religioso e afirme que não importa uma data simbólica, e sim o sentimento e reverência etc. a Jesus. Bem, importa se esta data *simbólica* fora escolhida de maneira nada besta, né?

Engodo moderno: o "nascimento de Jesus" ficou, na práxis natalina, em segundo plano, e toda a parafernália material entra em cena: decoração, presentes, comilança, personagens importados etc. Pensando-se na simplicidade original de Jesus, evidentemente os rituais materiais desproviram-se completamente de um fundamento cristão (não que o próprio cristianismo já tenha sido coerente com os fundamentos de Cristo, enfim). Por uma ironia histórica, os rituais realizados pela maioria das pessoas no Natal, ainda que se digam cristãs, aproximam-se muito mais do que é profano. É uma terceira lógica histórica que descende das lógicas pagã e cristã. E não adianta ser um cristão envergonhado que procure demonstrar conhecer o "verdadeiro" espírito natalino — neste caso, os cristãos que o conhecem mesmo seriam, por exemplo, as Testemunhas de Jeová, que ignoram o Natal apesar de seguirem ao Cristo definido na Bíblia. Fique claro, não estou levantando aqui qual vertente cristã seria mais "correta" que outra, pois como agnóstico tenho sérios problemas com todas elas, foi apenas um exemplo factual.

Involuntariamente, o materialismo natalino deu um chapéu na manolagem papal de mais de um milênio atrás. Não se trata de uma retomada pagã, mas de uma outra redefinição para o Natal em si mesmo, a despeito de qualquer retórica cristã ou humanitária: época em que as pessoas comem bem e dão presentes entre si para celebrar a comilança e a alegria em ganhar presentes.

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Futebol com pezinho no MMA

| 17 de dezembro de 2011
Não faz muito tempo que aprecio as artes marciais mistas, ou mixed martial arts (MMA), essa evolução do vale-tudo (evolução positiva, de muito bom gosto, vale mencionar). Talvez por não ter TV paga — opção desde sempre aqui em casa, por desinteresse geral que não compen$aria contratar tal serviço. Aí temos que a realidade é moldada de acordo com o que a TV aberta (Globo stricto sensu) escolhe exibir ou não, então MMA non ecziste. Ok, a Rede TV! (sic) exibia, mas não era lá tão estimulante, tanto por sua produção e transmissão quanto por ser gravado. Afinal, temos o YouTube para assistir às coisas posteriormente a sua exibição ao vivo!

Mas a internet e redes sociais quebram as barreiras da seleção midiática, e você tem um e outro amigo fãzaço que sempre compartilha um pitaco ou um vídeo (no meu caso, Carlos Henrique, autor d'O CH!). O portal de seu servidor de e-mail também dedica mais e mais matérias, o Twitter bomba em noites de UFC, então uma hora a curiosidade distante cede espaço à apreciação efetiva. Foi assim, e, após uma e outra edição em que não me entusiasmei muito, o UFC Rio, transmitido ao vivo pela Rede TV!, me despertou o interesse real pelo esporte.

Esporte! É bom sublinhar. Lembro das críticas que ouvia quando criança a respeito do boxe, e, mais tarde, sobre o vale-tudo, algo que nem sabia do que se tratava, de que nem vira qualquer exibição. O próprio Professor Girafales já contribuía em podar qualquer interesse pueril nas lutas. Acredito que todos compartilhamos empaticamente da vergonha de Chaves e Quico quando do sermão do mestre abominando "esse esporte selvagem, violento, brutal", na fadada tentativa de Seu Madruga introduzi-los ao esporte.

De fato, o vale-tudo evoluiu como esporte, e o MMA se legitima cada vez mais como tal. Existe violência, porém, o desenvolvimento da modalidade a profissionalizou, instituiu mais limites e conceitos, valorizou a técnica conjugada à força, o que diferencia brigas de lutas. A violência foi submetida à civilização. Isso é esporte.

Qual o animal que faz miau e come rato? / Ah, o gato! / Que te chuta com o sapato!

No UFC Rio, Anderson "The Spider" Silva exibia o escudo do Corinthians, enquanto Antônio Rodrigo "Minotauro" Nogueira vestia a camisa, digo, os shorts do Internacional. A versão oficial é que o pequeno Anderson chegara atrasado a uma peneira do Curíntia e por essa razão lhe disseram: NUNCA SERÃO; ele, desanimado, viu logo ali uma academia de boxe, começou a treinar e deu no que deu, tornou-se o cara. Os conspiracionistas afirmam que ele sempre foi torcedor do Coritiba e toda a versão oficial é mentirosa. Falsificações históricas existem, aos montes e a todo momento — como no caso emblemático da foto de Norma Bengell, jovem, protestando contra a ditadura, "interpretada erroneamente" como sendo Dilma em seu blog da campanha de 2010. Claro, o erro foi de quem interpretou: só porque Norma estava em destaque num recorte de três fotos que mostravam Dilma criança, Norma no meio e Dilma ministra? Quem interpretou que a intenção era de que a moça do meio fosse a Dilma jovem é que se enganou, correto? PEEERRRRM, errado, a equipe de marketing quis ser malandra e disfarçar a modalidade escolhida por Dilma no protesto contra a ditadura  — ela não era de passeatas, mas da luta armada, via esta bem impopular, e tal atividade não tem registros fotográficos abertos que esbanjem mobilização popular.

Se você entendeu que a do meio também seria a Dilma, cometeu "interpretação equivocada".

Voltando ao Sport Club Corinthians Paulista, verdade ou não, a versão oficial de Spider corintiano procura agregar afeto ao patrocínio cru. O caso do Minotauro parece mais transparente, espero que não tenham inventado como um menino de Vitória da Conquista foi conhecer e torcer por um time de Porto Alegre. Sem regionalismos (bitch, please), é apenas uma questão de distância geográfica e não-alinhamento do time gaúcho ao eixo Rio-São Paulo, cujos clubes geralmente têm mais popularidade Brasil afora.

A indústria do futebol indica querer usufruir da popularidade emergente do MMA. Para um esporte que começa a ser bem visto socialmente agora, pode-se ponderar se seria esta uma boa convivência. O MMA provém de um histórico de rejeição social e midiática; numa fase em que tenha se desenvolvido profissionalmente, seria benéfico associar-se a um esporte que, deploravelmente, tem um amplo registro de violência de parte de sua torcida? A preocupação aqui é sobre até que ponto a violência nos estádios pode transmitir-se em violência nos ginásios, à medida que o fanatismo a clubes de futebol venha a se estender aos atletas de MMA patrocinados pelos respectivos clubes. Caso isso ocorra, decerto os questionamentos moralizantes recairão sobre o esporte de luta ("de luta" não no sentido delubiano da coisa, claro).

De um lado, um esporte que estipula limites, técnica e objetivos razoáveis à violência — que pode servir de estímulo a pessoas de todos os tipos para procurarem a prática de artes marciais visando a inúmeros benefícios, inclusive a disciplina no uso da força. De outro, um esporte cujo gosto popular exaltado ocasiona eventos de violência, maloqueiragem, vandalismo e brutalidade generalizada, sem uma repressão eficaz, tamanha a sua difusão e ação coletiva. Mas, numa pressão moralizante, os valores se inverteriam muito facilmente, conhecendo o modo torto como normalmente se pensa por aqui. A culpa poderá muito bem ser apontada a esse esporte "violento e selvagem". Lembremos que a venda de Counter-Strike foi proibida porque o jogo estimula a afronta à ordem e ao estado (o argumento do juiz foi algo do tipo, googlem); prefiro não comentar essa estupidez. Recordemos também que as professoras no jardim de infância e primeiras séries do Fundamental censuravam quando dois amigos simulavam movimentos de Street Fighter sem nem sequer tocar um no outro, enquanto os bullies agem livres e impunes em todos os níveis de ensino.

O futebol está com um pé no MMA, e esse não é o pé que desfere um chute plástico e leal de uma arte marcial. Pode também não vir a ser o pé na bola que dá o nome ao esporte — mas o pé com tênis Nike Shox, Oakley, entre outras grifes falsificadas ou não, que chuta e pisoteia covardemente alguém que cometeu a infração grave de usar a camisa de um outro time.

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As pequenas notáveis bikes dobráveis

| 15 de dezembro de 2011
Em abril de 2010, iniciei-me no ciclismo urbano. Muito por acaso, mas com o estímulo inicial da rede de bicicletas compartilhadas UseBike (atualmente Nossa Bike), presente na cidade de São Paulo. Por um período, utilizei o serviço de empréstimo de bicicletas até sentir vontade e necessidade de ter meu próprio veículo. Não abandonei a bicicleta desde então.

Da mesma forma que uma pessoa interessada em determinado modelo de carro acaba por ver mais unidades dele nas ruas, nunca havia reparado tanto em bicicletas na cidade como após começar a usá-la como meio de transporte. Das bicicletas tops e bem equipadas às mais simples e secas, sempre confiro a passagem de um ciclista ou de um bicicreteiro (distinção apenas jocosa, pedindo licença ao politicamente correto), reparando tanto nos modelos utilizados quanto na forma que o condutor se comporta nas vias urbanas. Sem dúvida, o tipo de bicicleta que mais me chamava a atenção, fosse nas ruas ou estacionada nos bicicletários, eram as bicicletas dobráveis.

"Ah, aquelas que desmontam?"

Correto, aquelas que desmontam, como qualquer outra bicicleta pode ser desmontada KEKEKEKE. Mas entendo a intenção de quem usa esse termo, ainda que o correto seja dobrar, não desmontar.

Há alguns meses, utilizo uma bicicleta dobrável, a Blitz City. A Blitz é uma empresa brasileira cuja fábrica fica em... Taiwan. BRINKS, é uma importadora. As bicicletas vêm de Taiwan e recebem a marca.
Blitz City.

Adquiri a Blitz City pois desejava uma dobrável como bicicleta secundária, já tendo uma MTB (mountain bike) principal. Portanto, não desejava gastar muito desde a aquisição. A City me pareceu a melhor opção, com o valor de R$ 575, contra novecentos e alguma coisa de sua superior imediata, a Blitz Alloy.

As características mais notáveis da Blitz City são seu quadro em aço carbono (erroneamente chamado de ferro pelos sabichões) e sua marcha única (popularmente chamada de "sem marcha"). Características notáveis não em sentido positivo, pois geralmente as dobráveis possuem quadro em alumínio e 6 ou 7 velocidades (marchas). Também tem-se aros com parede simples, manetes de plástico, cubos, raios e demais peças básicas. O valor, entretanto, condiz com a inferioridade do conjunto. Uma bicicleta dobrável beira normalmente os mil reais.

Hoje, enquanto voltava do serviço com ela, um taxista me chamou no trânsito, perguntando onde se encontrava esse tipo de bicicleta. Indiquei lojas virtuais e uma física, e informei o preço. Ele considerou caro, como qualquer outra pessoa a quem digo o valor mesmo dessa dobrável básica. No site da Caloi, que recentemente voltou ao mercado de bikes dobráveis, com seus lançamentos Caloi Urbe e Caloi Bend, chovem comentários de pessoas indignadas, por exemplo, com o valor de R$ 1500 da Urbe; entre argumentos razoáveis ou não, há quem proteste contra o valor por "uma bicicleta tão pequena". Porra, sendo mérito de uma bicicleta dobrável a praticidade tanto para o transporte quanto para sua própria mobilidade, não há como entender que o fator tamanho seja negativo quando uma bicicleta dessa é pequena!
Caloi Urbe, "bicicleta pequena". Não acho que uma Caloi Barra Forte dobrável seria muito útil.

Bicicletas dobráveis são charmosas e muito úteis. O estranhamento a princípio é com a direção, um tanto diferente e aparentemente instável, devido ao comprimento. Quanto mais alto o guidão for ajustado, mais haverá essa sensação, e é por esse motivo que mantenho meu guidão numa altura mais baixa, que me condiciona mais a uma postura de MTB do que de conforto. Há também a diferença no rendimento da pedalada por conta do aro de 20 polegadas, contra o padrão adulto de 26. Todo esse estranhamento é passageiro, a menos que você alterne com frequência o uso de uma dobrável com o de um modelo mais convencional. Após um período longo utilizando apenas a City, estranhei ao pedalar minha MTB, pois, inversamente, sua direção me parecia muito lenta na resposta. A altura do selim (a.k.a. banco) também pode ser um problema para os mais altos, pois os canotes, mesmo que bem longos, tem um limite de inserção (tracejado no metal) que precisa ser excedido para uma altura adequada para pessoas a partir dos 1,75m. Já que vai se exceder este limite, o importante é que o final do canote seja inserido abaixo da solda do quadro.

Logo acima, reforcei o "voltou" quando me referi à Caloi no mercado de bikes dobráveis. Considero importante este esclarecimento, pois tenho observado uma série de notas, notícias e até reviews da Urbe como a "primeira bicicleta dobrável da Caloi", um equívoco histórico, levando-se em conta o simpático trambolhinho chamado Berlineta - esta, sim, a primeira dobrável da Caloi, de 1967.

Caloi Berlineta. Esta, sim, de FERRO.
Vejo as bicicletas dobráveis como complementares, tal qual um netbook geralmente é complementar a um desktop ou a um notebook. É muito viável, no entanto, ter uma dobrável como bicicleta principal, seja para o lazer quanto para o transporte funcional diário. Já enfrentei a hora do rush do centro de São Paulo a Ermelino Matarazzo (Zona Leste) com a City, que se comportou bem, apesar do menor rendimento; a vantagem principal ficou por conta de sua menor largura, que facilita a passagem entre veículos automotores - também tenho a impressão de que, pelo visual exótico e delicado das dobráveis, estas também chamem mais atenção no trânsito, tornando os motoristas mais cuidadosos. Os itens de série de qualquer dobrável, bagageiro e para-lamas, são uma vantagem adicional, principalmente no que se refere a evitar a nhaca das ruas em dias de pista molhada.

Quanto à manutenção e upgrades, dobráveis os exigem tanto quanto qualquer outra bicicleta. No caso da City, troquei apenas os manetes de plástico por alumínio, por questão de segurança - manetes de plástico são intoleráveis. Também fiz uma substituição supostamente involutiva: tirei os pedais dobráveis originais e coloquei um par de pedais de plástico comuns que estavam sobrando de minha MTB. Não conheço pedais dobráveis superiores, mas os da City, certamente básicos, eram horríveis devido a um jogo (grosso modo, folga entre peças que resulta num efeito de "chacoalhar") interno impossível de eliminar, que ocasionava em bizarrices como o pedal girar sob o meu pé nas subidas.

Quando a bicicleta deixa de lhe carregar e passa a ser carregada por você, a praticidade também deve ser levada em conta. Dobráveis em aço carbono, devido ao maior peso deste material, não devem ser carregadas por muito tempo, com o risco de dores nas costas e nos braços, tanto por conta do peso em si quanto da falta de jeito e formas de se carregar uma dobrável. A "dobrabilidade" vai variar de um modelo a outro, evidentemente influenciando o preço. A City é um verdadeiro trambolhão quando dobrada, se for para ser carregada no braço.


Assisti a um review da Urbe no YouTube cujo avaliador levava esta bicicleta no Metrô, dobrada, afirmando que, nessa condição, esse tipo de bike pode ser levada em qualquer horário no Metrô, diferentemente da regra normal (permite bicicletas apenas após as 20h30 de segunda a sexta, a partir das 14h de sábado e o dia inteiro em domingos e feriados). Não é verdade. Ou o horário era muito tranquilo e o metroviário no bloqueio não se importou (eu mesmo já passei numa estação com a bicicleta dobrada, sem pedir) ou o funcionário deu mole. A regra do Metrô de São Paulo é que a bicicleta dobrada deve estar embalada. Na falta de uma bolsa para transporte (cara, em torno de R$ 200, que não acompanha as Blitz - ponto para a Urbe, cuja bolsa a acompanha), quando tenho que fazer isso, utilizo uma capa para bicicleta que comprei e nunca uso (porque, bem... meu gato gostou de brincar com a capa e perigava de derrubar a bicicleta a qual cobria).

O rumo inexorável à mobilidade, à sustentabilidade e à intermodalidade, no qual a bicicleta ganha cada vez mais destaque, só tende a popularizar as bicicletas dobráveis nos meios urbanos (só espero que não se popularizem muito também no gosto dos ladrões e vagabundos diversos). Por enquanto, é bem legal a sensação hype de se utilizar uma dessas. Totalmente recomendáveis, superiores a muitos modelos aro 26" tradicionais, para quem deseja ingressar na gratificante e promissora rotina da bicicleta como meio de transporte.

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