Em abril de 2010, iniciei-me no ciclismo urbano. Muito por acaso, mas com o estímulo inicial da rede de bicicletas compartilhadas UseBike (atualmente Nossa Bike), presente na cidade de São Paulo. Por um período, utilizei o serviço de empréstimo de bicicletas até sentir vontade e necessidade de ter meu próprio veículo. Não abandonei a bicicleta desde então.
Da mesma forma que uma pessoa interessada em determinado modelo de carro acaba por ver mais unidades dele nas ruas, nunca havia reparado tanto em bicicletas na cidade como após começar a usá-la como meio de transporte. Das bicicletas tops e bem equipadas às mais simples e secas, sempre confiro a passagem de um ciclista ou de um bicicreteiro (distinção apenas jocosa, pedindo licença ao politicamente correto), reparando tanto nos modelos utilizados quanto na forma que o condutor se comporta nas vias urbanas. Sem dúvida, o tipo de bicicleta que mais me chamava a atenção, fosse nas ruas ou estacionada nos bicicletários, eram as bicicletas dobráveis.
"Ah, aquelas que desmontam?"
Correto, aquelas que desmontam, como qualquer outra bicicleta pode ser desmontada KEKEKEKE. Mas entendo a intenção de quem usa esse termo, ainda que o correto seja dobrar, não desmontar.
Há alguns meses, utilizo uma bicicleta dobrável, a Blitz City. A Blitz é uma empresa brasileira cuja fábrica fica em... Taiwan. BRINKS, é uma importadora. As bicicletas vêm de Taiwan e recebem a marca.
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| Blitz City. |
Adquiri a Blitz City pois desejava uma dobrável como bicicleta secundária, já tendo uma MTB (mountain bike) principal. Portanto, não desejava gastar muito desde a aquisição. A City me pareceu a melhor opção, com o valor de R$ 575, contra novecentos e alguma coisa de sua superior imediata, a Blitz Alloy.
As características mais notáveis da Blitz City são seu quadro em aço carbono (erroneamente chamado de ferro pelos sabichões) e sua marcha única (popularmente chamada de "sem marcha"). Características notáveis não em sentido positivo, pois geralmente as dobráveis possuem quadro em alumínio e 6 ou 7 velocidades (marchas). Também tem-se aros com parede simples, manetes de plástico, cubos, raios e demais peças básicas. O valor, entretanto, condiz com a inferioridade do conjunto. Uma bicicleta dobrável beira normalmente os mil reais.
Hoje, enquanto voltava do serviço com ela, um taxista me chamou no trânsito, perguntando onde se encontrava esse tipo de bicicleta. Indiquei lojas virtuais e uma física, e informei o preço. Ele considerou caro, como qualquer outra pessoa a quem digo o valor mesmo dessa dobrável básica. No site da Caloi, que recentemente voltou ao mercado de bikes dobráveis, com seus lançamentos Caloi Urbe e Caloi Bend, chovem comentários de pessoas indignadas, por exemplo, com o valor de R$ 1500 da Urbe; entre argumentos razoáveis ou não, há quem proteste contra o valor por "uma bicicleta tão pequena". Porra, sendo mérito de uma bicicleta dobrável a praticidade tanto para o transporte quanto para sua própria mobilidade, não há como entender que o fator tamanho seja negativo quando uma bicicleta dessa é pequena!
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| Caloi Urbe, "bicicleta pequena". Não acho que uma Caloi Barra Forte dobrável seria muito útil. |
Bicicletas dobráveis são charmosas e muito úteis. O estranhamento a princípio é com a direção, um tanto diferente e aparentemente instável, devido ao comprimento. Quanto mais alto o guidão for ajustado, mais haverá essa sensação, e é por esse motivo que mantenho meu guidão numa altura mais baixa, que me condiciona mais a uma postura de MTB do que de conforto. Há também a diferença no rendimento da pedalada por conta do aro de 20 polegadas, contra o padrão adulto de 26. Todo esse estranhamento é passageiro, a menos que você alterne com frequência o uso de uma dobrável com o de um modelo mais convencional. Após um período longo utilizando apenas a City, estranhei ao pedalar minha MTB, pois, inversamente, sua direção me parecia muito lenta na resposta. A altura do selim (a.k.a. banco) também pode ser um problema para os mais altos, pois os canotes, mesmo que bem longos, tem um limite de inserção (tracejado no metal) que precisa ser excedido para uma altura adequada para pessoas a partir dos 1,75m. Já que vai se exceder este limite, o importante é que o final do canote seja inserido abaixo da solda do quadro.
Logo acima, reforcei o "voltou" quando me referi à Caloi no mercado de bikes dobráveis. Considero importante este esclarecimento, pois tenho observado uma série de notas, notícias e até reviews da Urbe como a "primeira bicicleta dobrável da Caloi", um equívoco histórico, levando-se em conta o simpático trambolhinho chamado Berlineta - esta, sim, a primeira dobrável da Caloi, de 1967.
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| Caloi Berlineta. Esta, sim, de FERRO. |
Vejo as bicicletas dobráveis como complementares, tal qual um netbook geralmente é complementar a um desktop ou a um notebook. É muito viável, no entanto, ter uma dobrável como bicicleta principal, seja para o lazer quanto para o transporte funcional diário. Já enfrentei a hora do rush do centro de São Paulo a Ermelino Matarazzo (Zona Leste) com a City, que se comportou bem, apesar do menor rendimento; a vantagem principal ficou por conta de sua menor largura, que facilita a passagem entre veículos automotores - também tenho a impressão de que, pelo visual exótico e delicado das dobráveis, estas também chamem mais atenção no trânsito, tornando os motoristas mais cuidadosos. Os itens de série de qualquer dobrável, bagageiro e para-lamas, são uma vantagem adicional, principalmente no que se refere a evitar a nhaca das ruas em dias de pista molhada.

Quanto à manutenção e upgrades, dobráveis os exigem tanto quanto qualquer outra bicicleta. No caso da City, troquei apenas os manetes de plástico por alumínio, por questão de segurança - manetes de plástico são intoleráveis. Também fiz uma substituição supostamente involutiva: tirei os pedais dobráveis originais e coloquei um par de pedais de plástico comuns que estavam sobrando de minha MTB. Não conheço pedais dobráveis superiores, mas os da City, certamente básicos, eram horríveis devido a um jogo (grosso modo, folga entre peças que resulta num efeito de "chacoalhar") interno impossível de eliminar, que ocasionava em bizarrices como o pedal girar sob o meu pé nas subidas.
Quando a bicicleta deixa de lhe carregar e passa a ser carregada por você, a praticidade também deve ser levada em conta. Dobráveis em aço carbono, devido ao maior peso deste material, não devem ser carregadas por muito tempo, com o risco de dores nas costas e nos braços, tanto por conta do peso em si quanto da falta de jeito e formas de se carregar uma dobrável. A "dobrabilidade" vai variar de um modelo a outro, evidentemente influenciando o preço. A City é um verdadeiro trambolhão quando dobrada, se for para ser carregada no braço.

Assisti a um review da Urbe no YouTube cujo avaliador levava esta bicicleta no Metrô, dobrada, afirmando que, nessa condição, esse tipo de bike pode ser levada em qualquer horário no Metrô, diferentemente da regra normal (permite bicicletas apenas após as 20h30 de segunda a sexta, a partir das 14h de sábado e o dia inteiro em domingos e feriados). Não é verdade. Ou o horário era muito tranquilo e o metroviário no bloqueio não se importou (eu mesmo já passei numa estação com a bicicleta dobrada, sem pedir) ou o funcionário deu mole. A regra do Metrô de São Paulo é que a bicicleta dobrada deve estar embalada. Na falta de uma bolsa para transporte (cara, em torno de R$ 200, que não acompanha as Blitz - ponto para a Urbe, cuja bolsa a acompanha), quando tenho que fazer isso, utilizo uma capa para bicicleta que comprei e nunca uso (porque, bem... meu gato gostou de brincar com a capa e perigava de derrubar a bicicleta a qual cobria).
O rumo inexorável à mobilidade, à sustentabilidade e à intermodalidade, no qual a bicicleta ganha cada vez mais destaque, só tende a popularizar as bicicletas dobráveis nos meios urbanos (só espero que não se popularizem muito também no gosto dos ladrões e vagabundos diversos). Por enquanto, é bem legal a sensação hype de se utilizar uma dessas. Totalmente recomendáveis, superiores a muitos modelos aro 26" tradicionais, para quem deseja ingressar na gratificante e promissora rotina da bicicleta como meio de transporte.
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