Cabelos crespos e juízos embaraçados

25 de janeiro de 2013
O maior arranca-rabo da semana certamente é a discussão em torno do post no site da maternidade do hospital Santa Joana, sobre alisamento de cabelos crespos de crianças.

Meu sr., minha sra., é tão simples não fazer juízo de valor, informar sem discriminar. Mas não, a anta do redator ou redatora não podia se limitar a dizer "com a adesão cada vez maior às técnicas de alisamento, algumas mães recorrem a essas alternativas" — tinha que justificar com "para deixarem as crianças mais bonitas". Não se é aqui a favor de as pessoas serem cheias de dedos na hora de falar ou escrever, o que preocupa é que haja sinceramente esse juízo de valor.

Ela seria mais bonita com cabelos lisos?
Sem hipocrisia: a bebê preta da foto que ilustra o post da maternidade (uma graça, cuja foto, aqui reproduzida, obviamente foi googlada e decerto provém de uma agência de modelos mirins) ficaria mais bonita com os cabelos alisados? Moças e mulheres que interferem em sua estética o fazem por opção própria (ainda que influenciadas por uma "imposição de padrão de beleza" etc.) e podem ficar mais bonitas ou mais feias quando o fazem, mas artificializar o cabelo de uma criança, de forma constante e, principalmente, apenas por fins estéticos, é tão dispensável quanto passar-lhe maquiagem. Cabe aos pais julgar a intervenção que farão na natureza de seus filhos, mas é direito de qualquer pessoa julgar algumas intervenções como estupidez.

Orkutizou-se a acusação de racismo, mas também orkutizou-se a acusação de patrulha. Deve-se aprender a observar os casos e suas sutilezas em vez de ater-se a julgamentos rápidos e fáceis. Um fato: houve discriminação entre cabelos lisos e crespos quando aqueles foram definidos necessariamente mais bonitos. A cereja do bolo de merda desse post da maternidade é ilustrar o "texto informativo" apenas com uma criança preta, o que justifica, sim, a grita dos militantes com acusações de racismo. Por que não colocaram, também, umas duas fotos de meninas brancas com cabelos crespos? A acusação de discriminação contra cabelos crespos se manteria, mas a de racismo cairia por terra. Não é questão de se policiar, mas de ter uma simples noção do que se afirma.

Claro que a militância não sai incólume nessa sequência de cagadas: segundo a matéria acima linkada, um ativista teria dito que a publicação "ajuda a alimentar a exigência de uma beleza que não é a brasileira", esquecendo que cabelos lisos são, exatamente por nossa multietnicidade, beleza brasileira igualmente aos crespos e a todos os outros tipos.

Da galera do "não é pra tanto", cheguei a ler absurdos como ser interessante ter a opção alisar os cabelos, pois crianças com cabelos crespos tendem a sofrer bullying. Mas, então, a culpa é da vítima? É exatamente a mesma lógica da mulher culpada por andar de saia curta (MACHISMO, 2013), da pessoa culpada por "ostentar" seu bem material (SAKAMOTO, 2012) ou do loiro de olhos azuis que carrega a marca™ das elites (LEÃO, 2011).

Portanto, concordo que o post, se quisesse informar, deveria, sim, falar além de questões químicas, como levantar questionamentos a respeito da real necessidade (não apenas motivação) em intervir na natureza dos cabelos de crianças, ou, ainda, dar dicas de como pentear cabelos crespos sem machucar, entre outros aspectos do assunto. A maternidade, em nota, afirma que "não quis ofender", "não era a intenção" — ou seja, ainda por cima dispõe de manés também na assessoria de imprensa. Nunca é a intenção, nesses casos, realmente. Disso não duvido. Isso apenas, porém, não basta para isentar-se de responsabilidade.

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